Jean andava em uma rua muito movimentada, as luzes flutuavam por cima de sua cabeça e seus pés andavam rápido e doíam horrivelmente.
Ela tinha um papel dobrado quatro vezes no bolso e nos olhos Jean tinha um brilho típico de menina quando se está próxima de se tornar uma mulher.
Ela atravessou a rua correndo, seus pés protestavam debilmente e para distrair a atenção da dor, ela imaginou o que estava prestes a fazer e imaginou as conseqüências disso...
Jean sentiu o coração na garganta, e não apenas pela corrida que fazia, mas pelo mero pensamento de estar nos braços dele.
Ele. Ele. Ele. Ele. Ele. Ele.
Seis meses antes.
Quando chove você não espera encontrar garotas bonitas sentadas no banco de uma praça no meio do nada, olhando para o nada e não se importando com nada.
Os cabelos da garota bonita estavam empapados e escorregavam pelos seus ombros enquanto seus olhos encaravam a vida.
Ela estava começando a congelar e apesar do desconforto que isso causava, não deveria ser pior do que tudo o que ela estava passando.
Morrer congelada naquele momento pareceu a ela uma morte muito digna.
Seus braços protegeram seu rosto das gotas brutais que desciam do céu e machucavam sua pele.
Uma musica triste entrou em sua cabeça e ela pensou que aquele era o final, que a qualquer momento a existência dela chegaria ao fim. Um soluço ficou preso em sua garganta e ela se impediu de chorar. Fechou os olhos.
Perdeu a noção do tempo.
Percebeu a presença de alguém próximo e de um jeito bem preguiçoso abriu os olhos se perguntando quem seria o miserável a interromper aquele momento de reflexão de sua vida
Era um imenso guarda-chuva vermelho e embaixo dele havia um homem a encarando sem nenhuma expressão que ela pudesse decifrar.
__Você está bem?
__Sim.
Ele deu um sorriso divertido para a garota bonita:
__Bom, penso que parece perdida.
__Mas estou bem!
Ele ficou olhando para ela durante alguns segundos a achando completamente louca.
__Quer um cigarro?
A garota bonita o olhou como se ele houvesse acabado de chutar um filhotinho de gato.
__Não fumo.
Ele então se sentou ao seu lado sem nem ao menos pedir licença e ela se sentiu incomodada e amedrontada com sua proximidade.
__Tenho vinho na bolsa, quer?
__Eu estou bem, não se preocupe.
Ele olhou para aquele rosto frágil de boneca e disse:
__Você está com os lábios azuis... Penso que seria bom tomar alguma coisa que aqueça seu sangue.
Garota bonita se deu conta que seu corpo estava até mesmo dormente devido ao frio:
__Ok... Aceito o vinho.
Ele sorriu para ela e abriu a mochila que carregava tirando de lá uma garrafa de um vinho de aparência barata.
Garota bonita tomou direto do gargalo e ele se aproximou ainda mais dela guardando seu corpo com o guarda-chuva vermelho.
__Sou Theodoro, a propósito!
Garota bonita disse:
__Sou Jean.
__Você costuma sentar em praças enquanto o mundo desaba?
__Não.
Theodoro respirou fundo e ela o encarou. Ele parecia ter quase trinta anos o que o fazia uns dez anos mais velho que ela e tinha um nariz grande porem extremamente charmoso. Seus olhos eram perigosos e castanhos, talvez amáveis, talvez quentes. O cabelo estava um pouco úmido e era muito desorganizado, como se tivesse acabado de acordar.
Jean voltou a atenção para o nada a sua frente e eles ficaram em silencio, um ao lado do outro até a chuva acabar e se tornar uma garoa desconfortável. Dividiram um guarda-chuva vermelho sentados em um banco envernizado recentemente como se fossem velhos conhecidos, como se sempre houvessem feito coisas assim.
__Você deveria ir para a casa, pequena Jean... Suas roupas estão ensopadas, acho que você pode pegar uma pneumonia se continuar assim.
Ela o encarou com seus olhos azuis opacos e sussurrou:
__Talvez eu seja uma sem teto, talvez eu não tenha uma casa.
Theodoro a encarou e sua boca se entortou em um divertido meio-sorriso:
__Então eu posso te adotar. Levo-te para minha casa, te dou um banho quente, te ofereço cobertores e te dou mais vinho.
Jean o olhou com um pouco de surpresa e depois de ver seu sorrisinho acabou sorrindo também, o risinho se tornou gargalhadas histéricas e aqueles dois estranhos ficaram naquele banco, amparado por um guarda-chuva vermelho, rindo como se fossem crianças tolas.
Foi naquele momento, por causa daquelas palavras sem sentido de Theodoro que Jean se apaixonou por ele.
Seis meses depois
Jean estava quase chegando na rua dele, uma risada preencheu os lábios dela e sua vontade foi de dar pulinhos.
Ela relembrou algumas frases do que havia escrito naquele papel dobrado em seu bolso
“ Sua respiração chega a ser uma poesia, suas palavras são harmônicas como o mais doce canto dos anjos, sinto sua presença até mesmo em uma rua vazia, sinto você o tempo todo e as vezes sinto tanta sua falta que parece que um pedaço meu se perdeu... Gosto tanto de você que sinto vontades de beijar todo seu corpo, quero roubar-te para mim.Quero te mostrar que sou tua, quero que sejas meu! Sejas meu, eu amo você.”
Essa seria sua declaração de amor e em seus pensamentos ele reagiria tão bem que a tomaria nos braços e lhe daria um bom beijo e aquele primeiro beijo deles seria sempre lembrado por eles em todos os momentos.
Com o coração na garganta ela finalmente virou a esquina do apartamento dele e...
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E o viu nos braços de outra. Grudados pelos lábios e dividindo calor. Bem na frente do prédio e a cinco passos de Jean
Como era possível?
Eles se abraçavam tão fortemente que pareciam prestes a chegarem as vias de fato.
Nojento. Repulsivo.
Sem perceber Jean soltou um gemido de sofrimento e se deu conta que as mãos que estavam no bolso em torno do seu papel dobrado estavam o amassando, destruindo.
Seu coração não somente se quebrou,ele mais parecia ter sido atingido por uma bomba atômica.
Ela soltou uma risada e uma lágrima escapou de um de seus olhos. Deu as costas para a cena de beijos e abraços a sua frente e voltou pelo mesmo caminho que havia feito para chegar até ali.
Um comentário:
Os mais belos são aqueles que tornam as coisas piores.
Até uma tempestada fica bonita quando se tem uma boa companhia e vinho.
Talvez aquele papel jamais saia do bolso dela. Mas o caminho por onde ela veio agora está totalmente diferente.
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