sábado, 26 de fevereiro de 2011

tears for affairs

Eu gosto de relacionamentos platônicos. Desde a minha infância.

Jeito esquisito de começar uma história, mas é assim que a minha começa. E ela começa assim porque existe esse garoto que era o meu amor platônico. Ele era aquele que eu sempre via andando pelo prédio da minha faculdade com outra garota e que minhas amigas brincavam dizendo que ele tinha jeito de gostar do mesmo sexo.

Provavelmente, ele era meu amor platônico porque era bonito e fazia o meu tipo. Até em baixo da chuva ele era bonitinho; com aquele guarda-chuva grande e azul, aquela roupa xadrez e aquele corpo magrelo.
O fato era que ele me atraia e eu achava que eu combinaria mais com ele do que a menina que ele andava de mãos dadas.

Sei também que pensar daquele modo não adiantava de nada. Muitas vezes, tenho certeza que ele amava a garotinha, depois eu mudo a minha opinião e penso que ele só estava com ela para a comer.

Grosseiro.

Na vida real eu tentava não pensar desse modo a respeito das pessoas, pois eu tento ver amor em tudo que existe no mundo. Mas no meu mundo fantástico era simplesmente inadmissível que ele estivesse com aquela garota por amor, quando eu, que sou sua alma gêmea, estava justamente dividindo o mesmo prédio da faculdade com ele.

Com o passar do tempo, acabei no mesmo círculo de amizades que ele. E a certeza que o meu amor platônico ia acabar era cada vez mais concreta.

Para explicar essa certeza, eu poderia dizer que eu sempre me decepcionei com meus amores platônicos depois de os conhecer um pouquinho. Eles eram sempre muito humanos, cometiam erros estúpidos e me enjoavam fácil demais.

Entretanto, percebi que o momento do meu amor cair por terra estava demorando a chegar... Cada vez eu tinha mais certeza de que combinávamos como arroz com feijão, john e yoko, jim e mary. E a cada brincadeira que ele fazia, eu me imaginava dividindo aquele guarda-chuva azul com ele em todos os dias chuvosos que viriam pela frente. Me imaginava ouvindo com ele minhas músicas tão indies e às vezes me permitindo ouvir os sons pesados que ele curtia. Imaginava ele naqueles saraus de Literatura que eu amava, ouvindo poemas da Adélia Prado comigo e beijando minha boca em meio aos versos. E na minha cabeça era tudo tão perfeito que quando a garotinha dele aparecia e interrompia as minhas fantasias apaixonadas, eu faltava morrer.

O tempo passou e agora estou com outro carinha.Um de verdade, que não é fruto dos meus sonhos mais altos.O carinha é bonitinho, ele usa jeans e camisetas de bandas cools, divide o guarda-chuva verde dele comigo em dias de chuva, ouve minhas músicas com mais frequência do que eu ouço as dele, entrelaça os dedos nos meus com uma naturalidade impressionante e me beija enquanto me ouve recitando Adélia Prado. Além disso,ele sempre aparece na minha sala da faculdade e assiste às minhas aulas de gramática com atenção grande o suficiente para se passar por aluno; meus amigos gostam dele e já vi que algumas garotas o olham esperançosas quando saímos juntos.Todos esperam que o nosso relacionamento se torne mais sério porque, segundo vários amigos, nós somos como arroz com feijão, john e yoko, jim e mary.

Penso, então, que o ser humano nunca consegue estar satisfeito com aquilo que tem, porque apesar de tudo o que eu tenho com o meu carinha, aquele garoto do meu amor platônico ainda faz meu coração disparar todas as vezes que passa pela minha frente com a sua garotinha. Ele às vezes me cumprimenta, às vezes só me olha e sorri... Mas o sorriso dele me deixa feliz por alguns momentos do dia.

Os amores platônicos têm esse charme tentador de perfeição, mas às vezes eles não são suficientes para nos fazer felizes, então temos que tentar viver a vida do jeito que ela se apresenta. É claro que eu sei disso... mas acho que eu vou sempre ser fascinada por aquele garoto do guarda-chuva azul. E não sei se há algo que eu possa fazer para mudar isso... Pra falar a verdade, não sei nem se quero mudar isso. Às vezes amar em segredo aquele garoto é uma das coisas mais bonitas que eu tenho dentro de mim e mesmo que ele não me corresponda, ainda sou agradecida por ele existir.

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