Eu queria sentar e escrever tudo sobre nós: nossas
conversas, os nossos assuntos, os inúmeros apelidos, nossas brincadeiras, seu
sorriso, sua tatuagem no peito, na barriga, no braço. Queria falar dos seus
olhos que são os mais bonitos que já vi. Esses olhos, seu cabelo, meus sonhos e
o teu cheiro. A sua touca.
Se eu falar de tudo isso, também terei de falar dos nossos
piores momentos e das brigas que me dilaceraram. Sua personalidade inconstante:
um dia me amava, no outro nem sabia quem eu era. Seus olhos. Agora cruéis.
A reconciliação,
aquele misto de ódio e amor que eu sentia com as suas palavras de
desculpas. Conversando com cuidado, as palavras
medidas diversas vezes antes de serem ditas... Agora não há mais apelidos,
agora há precaução. Você não quer ficar longe de mim, eu sinto que você sente a
falta que eu pensava ser só minha. Conversar
é hábito e me faz feliz, mas de repente você me quer pra você.
Insiste, me dedica afeto, me diz todo o amor, me rouba a atenção, mas estou
com tanto medo de você, de mais brigas, de mais desgaste. Trancada no banheiro, largada no canto chorando em desespero,
joelhos no chão e vômitos provocados pela agonia, aprendendo a fumar e a me entorpecer com
bebidas e lágrimas. Não, bonito, não quero mais isso.. Não posso sair, não
posso te ver, não dá, tenho outros compromissos, sim estou tão ocupada.
Então o Rio de Janeiro e quem te impedirá de fumar e
amar? Mãos dadas, fotos bonitas, um
chapéu boêmio, seu novo caso de amor. E
ela sorri com os olhos e os cabelos encaracolados são lindos e vocês agora moram juntos. Conversar
agora é o que me ajuda a manter a
sanidade.
Só aguento um mês de saudade antes de chegar implorando pela
sua atenção. Alguem me diz que é obsessão, o ano novo promete ser ruim
porque vai fazer um ano que te conheci e a cada dia que passa cada conversa,
cada apelido, cada assunto, nossas brincadeiras, seu sorriso, sua tatuagem no
peito e barriga e braço e seus olhos e seu cabelo e sua touca completam um ano.
Um ano.
Eu penso e desespero por você, pelo bizarro, penso em
morrer. Olho-me no espelho do armário e
a agonia volta. Meu reflexo chora.
Caí.
Por dias.
Semanas?
Você ainda gosta de
conversar, e é gentil na maior parte do
tempo, usa o apelido com ternura e é doce ver a sua doçura. Sua felicidade me
machuca e faz de mim egoísta. Agora eu
te atinjo com a minha saudade e me sinto culpada por isso. Hoje eu sonhei com
você e com o retrato pra Iaiá, eu sonhei com seu cheiro e com a sua touca que
eu roubava pra sempre e guardava e guardo.
E guardo, bonito, e guardo.
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