quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

High and dry


Estou tendo notícias ruins todos os dias. Sinto-me como se o mundo inteiro estivesse conspirando para que eu perca a cabeça.
É  o emprego que depende da nova prefeitura e ela nos trata com um descaso absurdo, brincando com nossas vidas como se não houvesse contas a pagar, como se não dependêssemos desse emprego para conseguir terminar a faculdade, que por sinal aumenta a mensalidade todos os anos e eu já estou pagando uns cem reais a mais do que quando comecei.
São essas contas que vão crescendo, crescendo, crescendo e me fazem desejar vender a alma, porque ouvi dizer que ao fazer isso os problemas se resolvem.
É  o tédio de ficar a espera de alguma notícia dentro dessa casa. Olhando para minha varanda e vendo o tempo passar, o tempo morrer e eu morrer junto com ele.
O cheiro do desemprego me enoja,  a inércia de não ter dinheiro para comprar uma bala na padaria, de não ter dinheiro para pegar ônibus, que por sinal também aumentou o preço, essa inércia, ela quase me mata.
Nesse emaranhado de preocupações me vejo metida em situações nas quais amigos me dizem coisas horrorosas, me acusam de ser egoísta e de não saber lidar com a vida paralela de ninguém. Após todas as acusações, vem as desculpas e, infelizmente, após as desculpas não vem o esquecimento, então, as palavras ditas ficam indo e vindo à minha cabeça e ferindo e magoando cada vez mais a ferida aberta.
E aí, quando penso em fazer alguma besteira, quando me vejo sem perspectivas nessa vida MAIS UMA VEZ, você surge como por mágica  ou como se houvesse escutado meu pedido de ajuda. Você me diz para ter calma,  diz que as coisas ruins quando vêm, não vêm sozinhas mesmo e que eu tenho que encarar tudo com tranquilidade. O engraçado é que  eu  realmente me  sinto  melhor e isso acontece porque você me diz para me acalmar.Fico pensando que me tornei um  ‘capacho’ das suas vontades, tamanho é o seu poder sobre mim.
Você me diz que se vejo a vida passar pela janela, então devo fazer alguma coisa nova dentro de casa, para me distrair. Você, então,  me dá sugestões de meditação e  eu digo que ando tentando o incenso, você se assusta e diz que sugerir o incenso estava na ponta da língua (ou dos dedos, nesse caso em particular) e acha engraçado essa coincidência. Mesmo que,  para mim, isso soa como a nossa ligação bizarra se fazendo presente, decido não dizer nada sobre ela, deixo você achando que é pura coincidência mesmo.
‘Radiohead é bom’, você fala e  também me pede para  não fazer nenhuma besteira. Eu quero te dizer que hoje não vou fazer nada porque de alguma maneira,que só o universo poderia explicar, você me salvou. As palavras ficam congeladas em meus dedos e a coragem de dizer some, de modo que penso em terminar o texto que estava fazendo antes de você me chamar, e colocar cada uma dessas palavras não ditas nele para não morrer sufocada.
O texto que eu escrevia era só pra relatar como esses dias têm sido tristes, tediosos  e era pra provar a mim mesma que eu conseguiria escrever algo bom sem precisar mencionar você. Bom, falhei miseravelmente. Você simplesmente está em todos os lugares.




Radiohead dentro da minha cabeça, cheiro de sol pelo varanda, meu corpo deitado no chão do quarto, minha ansiedade faz eu ficar batendo no incenso para ver as cinzas caindo no chão e então percebo...
Percebo que é isso que faço a vida toda: da mesma forma que bato no incenso para ver as cinzas caindo antes do tempo certo, eu apresso minha vida e tento controlar coisas incontroláveis por pura ansiedade.

“Não me deixe mal, não me deixe sozinho”

Nenhum comentário: