Jean ainda estava deitada em seu tapete, quando ouviu a voz de seu pai a chamando...
Não esteja bêbado, não esteja bêbado, não esteja bêbado...
As paredes de seu quarto pareciam absorver toda a sua preocupação e as cores vivas de repente pareciam zombar de toda aquela situação.
Ele apareceu a porta. Os olhos azuis e os cabelos desalinhados chamando a atenção. Jean soube que ele não estava bêbado, pois estava quieto demais.
__O que foi pai?
__Você fez a comida?
Jean havia se esquecido. Pediu desculpas, se levantou e rapidamente correu para a cozinha preparando algo rápido. Talvez macarrão.
Quase todas as vezes que entrava naquela cozinha escura e melancólica ela se lembrava de que foi ali que ela viu sua mãe pela ultima vez.
Sete anos antes
Era onze e quinze da manhã, era o horário que sua mãe costumava preparar o almoço. Jean estava assistindo desenho no sofá vestindo seus velhos pijamas com girafinhas, seu preferido.
Ela assistia e não falava nada, nem sorria. Só assistia porque era algo fácil de assistir. De repente um movimento na cozinha chamou sua atenção.
Sua mãe que havia ficado muitos minutos escolhendo feijões agora os jogava todos ao chão. O barulho foi irritante e para Jean foi algo tão fora da sua realidade que seu coração quase foi parar na garganta.
Percebera que sua mãe estava louca. E o pior de tudo é que ela estava sentindo medo da própria mãe.
Sua mãe tacou a água que cozinharia o feijão no chão e tacou a panela de pressão na parede com toda força.
O barulho dessa vez foi ensurdecedor.
Ela saiu da cozinha aos tropeços, os soluços rasgando sua garganta e os olhos perdidos. A mãe de Jean saiu de casa sem nem ao menos olhá-la.
Quando seu pai chegou em casa, foi um desespero. Ele pediu sua ajuda para limpar toda a cozinha e depois de limpar bebeu pinga até dormir sentado no sofá.
Até então Jean não havia percebido que sua mãe havia a deixado, só foi perceber muito mais tarde quando uma amiga dela veio buscar suas roupas. Foi quando ouviu o pai gritando com aquela mulher e mandando-a dizer para sua ex-esposa palavras terríveis.
Jean nunca mais viu sua mãe.
Sete anos depois
Jean começou a lavar a louça enquanto observava a panela com macarrão e a panela com molho de tomate.
Às vezes enquanto estava naquela cozinha sentia a mesma vontade louca de tacar as panelas para o alto e fugir.
O macarrão ficou pronto. Seu pai foi até a cozinha e ela serviu a comida em seu prato.
__Você saiu essa noite?
Jean não olhou para ele enquanto mentia dizendo que não havia saído.
__Você estava chorando por qual motivo Jean?
__Não estava chorando. É minha alergia.
Ele continuava a encarando.
__É por causa daquele idiota que eu te vi conversando aquele dia?
Sim.
__Já disse que não estava chorando.
__Você abriu as pernas para aquele miserável Jean?
Qualquer garota se sentiria horrorizada com aquela frase, menos Jean. Seu pai falava coisas desse tipo o tempo todo.
__Não.
__ Espero que você perceba que esse cara é daquele tipo de cara que gosta de comer garotinhas para se sentir jovem.
Foi mais ou menos como uma ferroada muito incomoda no coração, Jean percebeu. Apesar de ser nojento o modo com que o pai falava no fundo talvez ele estivesse com a razão.
__Pode ser, eu não ligo!
O pai dela deu de ombros
__Já jantou?
__Não estou com fome hoje.
Ela então saiu da cozinha e subiu as escadas até seu quarto se sentindo exausta. Sentindo aquela necessidade maravilhosa de esvaziar a mente e ficar anestesiada por umas boas nove horas de sono.
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