Eu preciso escrever sobre o dia de ontem para não esquecer, para minha memória não pregar peças em mim e eu acabar com vários espaços vazios sobre o que aconteceu porque foi rápido demais, mas foi lindo.
Peguei o trem com meus amigos, fui até o Brás, de lá peguei o metrô e fui até a Barra Funda. Encontrei todos os mais lindos da minha vida e felizes, felizes, fomos até o Memorial da América Latina.
Tomamos umas brejas, fumamos alguns cigarros, e ficamos conversando. Percebi que a minha volta só tinha meninas e meninos 'descolados', casais 'hipsters'. Nunca tinha visto tantas ruivas em um show antes e cada uma com uma tonalidade diferente. Me deslumbrei e analisei qual das cores seria mais apropriada para a minha próxima experiência.
Você deve estar se perguntando então porque haviam tantas RUIVAS, e eu te respondo aqui e agora: ora, porque eu fui ao show da Kate Nash!
Lembra dela? Aquela moça lindinha que eu comecei a ouvir quando tinha dezesseis anos e me apaixonei. Comprei o primeiro cd "Made of bricks" no dia do meu aniversário de dezessete anos e passei meses e meses enchendo o saco de todos a minha volta ouvindo aquela moça todos os dias. Me arrisco a dizer que aqui nesse blog há vários posts com letras de músicas dela, com sentimentos inspirados por ela, pela alegria doce que ela me trouxe em dias difíceis e em dias bonitos. E mais, me arrisco a dizer que se sou quem eu sou hoje, se penso, se escrevo da maneira que escrevo, se sinto o que sinto, foi porque ela me ajudou muito a ver o mundo com outros olhos.
Depois dos cigarros e cervejas entramos no Memorial e ficamos juntos do povão curtindo o Bonde do Rolê fazendo versões divertidas, mas um tanto quanto excêntricas, do Cure. Cantei porque estava feliz e como era cedo ainda, fiquei imaginando se aguentaria até a entrada da minha musa.
Fomos nos mexendo e fomos chegando perto do palco, não tão perto agora mas esperando pelo momento certo de ir arriscar e chegar à tão sonhada grade.
A tal banda que metade da galera tava esperando pra ver chegou, eles cantavam bem, mas confesso que quase dormi e já não aguentava mais a música, o barulho, a caixa de som que estava perto de onde estávamos. E então, uma grata surpresa: participação especial do Marcelo Jeneci com a banda, tocando e encantando com sua sanfona e interpretando uma música do Cae. Jeneci é incrível e apesar de já desejar sentar no chão (mesmo sabendo que jamais conseguiria por causa da lotação) até arriscamos uns passos de dança. Fim do show da banda Magic Numbers e a galera foi se mexendo, alguns indo embora, nossa chance, então, de ir chegando mais próximos da grade.
O tempo de espera para o show da Kate, depois do show dos Magic Numbers, foi o pior. Eu já estava muito cansada, com dores em todas as partes do corpo, com fome, sede, querendo sentar e dormir, com a gastrite meio atacada de nervoso e uma leve náusea. A tontura também estava presente, um pouco de pânico por saber que se as vertigens viessem eu daria trabalho a todos meus amigos e eles não conseguiriam ver o tão aguardado show. Mas aí o apresentador do show veio e nós já sabíamos que ele iria apresentar ela e nos animamos. De repente o telão se encheu com fotos dela cantando tão linda, parecendo uma daquelas divas do cinema dos anos cinquenta. E aí, ela entrou no palco, cara. E a mágica aconteceu.
Eu fui esquecendo o quão cansada eu estava, a emoção foi absurda, eu queria pular e cantar e gritar com ela e saber que a gente finalmente tava cantando juntas, JUNTAS, de fato, me emocionou.
As músicas foram rolando e a cada brecha que percebíamos, íamos nos aproximando do palco e quando me dei conta, estávamos já o mais próximo da grade que podíamos e tão perto, tão perto dela que quando ela se aproximava da grade e da multidão para abraçá-los eu conseguia ver direitinho seu rosto. Era ela, de verdade. Tão branquinha, cheia de sardas, louca abraçando a multidão e conversando com a plateia olho no olho.
A cada vez que ela se aproximava da platéia, minha amiga me olhava em pânico porque estar tão perto da Kate deixava a gente em pânico, nervosas com aquela quebra fantástica da realidade. Quer dizer, a moça dos encartes dos meus discos, dos vídeos do youtube, a moça que escreveu a trilha sonora da minha vida desde os meus dezesseis anos, todas as fases complicadas da minha vida desde então, estava ali na nossa frente, cinco passos (preciosos passos) à nossa frente.
Chegou uma hora que a náusea estava imensa, era muita gente se espremendo, mas de certa forma consegui entender a fúria dos shows de hardcore naquela hora. Enquanto as músicas mais punks tocavam, e a gente pulava e se espremia e se empurrava, a gente alcançava uma certa libertação dos problemas.
Enfim, o show acabou com ela cantando minhas duas músicas favoritas do primeiro cd (we get on e birds) e consegui me desvencilhar do povo que se espremia e fui achar meus amigos e conversar.
Foi naquele momento que percebi que uma parte da multidão que havia permanecido até o final estava nas grades e vi que minhas amigas me chamavam e percebi que a Kate deveria estar ali, então fui.
Ela estava à uns vinte passos da gente, e eu fui a chamando, chamando, chamando até que ela se aproximou e parou na minha frente esperando pra ver o que a gente queria, da maneira mais fofa possível e eu segurei na mão dela e ela disse "thank you, thank you" e eu entrei em choque.
e estou em choque até agora. E é por isso que preciso escrever sobre o que aconteceu ontem, o medo de esquecer está grande. O saldo foi muito positivo, apesar das dores em todas as partes do corpo, da pressão que subiu de nervoso por vê-la e o enjoo na volta por causa do trem que se balançava, eu faria tudo novamente quantas vezes fosse possível só para vê-la de novo e segurar em sua mãozinha.